Interesse por cursos na área de Ciências diminui entre jovens

Química, Física, Estatística e Matemática estão entre as campeãs em desistência na graduação e diminuição de inscritos vestibular na UFBA, tendo como possível causas a dificuldade das disciplinas e a falta de estímulo nos conteúdos ainda no ensino básico e médio.

REPOST FROM: MATHEUS VIANNA, AGÊNCIA DE NOTÍCIAS CIÊNCIA E CULTURA, UFBA

Os cursos de Ciências Exatas e Biológicas estão sofrendo um processo de esvaziamento nas universidades brasileiras, e na Bahia não é diferente. Nos últimos vestibulares, a concorrência nos cursos de licenciaturas tem diminuído, assim como o número de matriculados, que mesmo após ingressarem na universidade desistem da carreira.

Os dados mais recentes do Serviço de Seleção, Orientação e Avaliação (SSOA) da Universidade Federal da Bahia apontam a baixa procura dos estudantes pelos cursos de Matemática, Química, Biologia, Física e Estatística. Esses cursos lideram a lista de rejeição, juntamente com o curso de Estatística que é o campeão em baixa procura. “No curso de Estatística, no semestre 2013.1, foram oferecidas 60 vagas e tivemos oito alunos matriculados, sendo que esse número vem decrescendo” afirma o Pró-Reitor de Ensino de Graduação da UFBA, o professor Ricardo Miranda.

Em 2012 a Ufba disponibilizou 30 vagas para o curso de licenciatura em Biologia no período noturno, porém somente 19 foram preenchidas. Em 2013, o mesmo número de vagas para o curso foi oferecido e apenas 13 preenchidas.

Essa falta de interesse por cursos nas áreas de licenciaturas e exatas já tem interferido diretamente no mercado de trabalho, que tem recorrido a outros profissionais para assumirem as vagas de emprego destinas a essas carreiras. Em relação à Estatística, por exemplo, a atual coordenadora do curso na Ufba, Verônica Lima, comenta que profissionais de outras áreas assumem vagas de estatísticos no mercado de trabalho na falta de candidatos. Esse cenário se agrava na Bahia, devido o mercado ser mais reduzido do que em outras capitais maiores como o Rio de Janeiro e São Paulo. “É claro que as atividades desenvolvidas por um profissional de outra área não podem ser as mesmas de um profissional em estatística e isso nos preocupa, porque temos um desafio que é de atrair e formar profissionais acadêmicos para entre as muitas atividades, contribuírem para o desenvolvimento do nosso país”, afirma a professora.

Outro problema é a falta de professores especializados no ensino básico e médio. Segundo um levantamento feito Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), instituto de pesquisas do Ministério da Educação, pouco mais da metade, 55 % dos professores da rede pública do país não tem formação específica na área que atua. A Bahia é o estado que possui a menor proporção de professores com a formação específica, 8,5%, ficando atrás do Mato Grosso, 15,4%, e Amazonas, 16,9 %. A pesquisa mostrou que o déficit é causado pela evasão e baixa procura por curso de licenciaturas nas universidades.

De acordo com o pró-reitor Ricardo Miranda, a adesão da universidade no Sistema de Seleção Unificada (Sisu), poderá ajudar a reverter esse cenário, proporcionando uma maior democratização no acesso a esses cursos. De acordo com ele, os primeiros números, obtidos pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), são animadores. “A média de alunos matriculados nas universidades que foram aprovados pelo Sisu está entre 30% e 40% e, no entanto, a Ufba, em seu primeiro ano de inserção ao processo teve um índice de matrícula de 61%, superando a média nacional”. Tendo como exemplo o curso de Estatística, o número de matriculados saltou de oito para vinte e seis em 2014.

“É cedo para analisar com precisão o Sisu, mas acredito que esse maior número de estudantes inscritos vai ajudar com esse problema das vagas não preenchidas na universidade” analisa o Pró-Reitor da Ufba.  Ele ainda completa que uma ação paliativa para essas vagas é o oferecimento delas, no meio do ano, para portadores de diploma de nível superior e transferências internas e externas.

Motivos

Uma pesquisa realizada pelo Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Universidade Estadual de Campinas e o Observatório Ibero-americano de Ciência, Tecnologia e Sociedade mostrou que o desinteresse pelas carreiras científicas começa ainda no ensino básico. A pesquisa coordenada pelo professor da Unicamp e ex diretor da Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo (Fapesb) Carlos Vogt, sobre percepção pública da ciência entre jovens, revelou alguns motivos que causam o desinteresse dos estudantes pelas carreiras científicas.

O levantamento mostrou que mais de 78% dos estudantes acham essas disciplinas nas escolas “muito chatas” e 60% dizem não conseguir acompanhar os assuntos trabalhados, sendo as disciplinas difíceis. De acordo com Carlos Vogt, esses dados desanimadores devem ser encarados como potenciais a serem trabalhados por políticas públicas. “A formação de professores de ciências competentes para a educação básica é ponto chave neste processo”, afirma. “É preciso que nossos jovens recebam uma educação científica de qualidade e entendam que a ciência está presente nos mais diversos aspectos de nossas vidas”, completa.

O baixo interesse pelo campo da ciência foi constatado por um estudo realizado por pesquisadores da Pós-Graduação de Ensino de Ciências da UnB intitulada ”A escolha pela carreira docente: os casos dos cursos de licenciaturas em Ciências Naturais e Educação de Campo”.  Essa pesquisa traz informações relativas ao motivo de escolha do curso de Licenciatura em Ciências Naturais da universidade. Os dados apontam que 33% dos entrevistados afirmam que escolheram pela facilidade de entrada, 13% pela maior empregabilidade e 3% pela identificação com a proposta do curso.

Estímulo à carreira científica na Bahia

DSC_5598Quando o assunto é escola e ciência, a professora Rejâne Lira, do Instituto de Biologia da Ufba, é uma das pioneiras na Bahia sobre iniciação de jovens do ensino médio e fundamental na área. Ela é responsável pela organização do Encontro de Jovens Cientistas, projeto elaborado para trazer alunos de escolas públicas e particulares para o âmbito universitário. O evento foi criado em 2005 e realizou sua quarta edição no mês de outubro de 2013.

De acordo com a professora, os estudantes possuem interesse em ciências, mas no momento da inscrição para o vestibular optam por outras profissões. Segundo ela, o fator determinante para a escolha da futura carreira está ainda ligado à remuneração da mesma. “Tenho exemplos de estudantes ótimos em química e física que em vez de seguir carreira nestas áreas, escolheram outras completamente diferentes”, diz. A situação das licenciaturas nessa área é alarmante. Cursos esvaziados têm como possível causa a desvalorização do profissional de educação no país, principalmente na rede pública.

Para Bárbara Rosemar, professora de Biologia da rede pública de ensino na cidade de Salvador, a atual prática escolar está fora do contexto da sociedade. “O método de falar e escrever está esgotada. Há necessidade de levar os estudantes a pensar sobre algo, ter hipóteses, testar e, além de tudo, discutir o que tal assunto modifica ou influencia a vida daquele estudante”, afirma a professora.

A professora, que ensina no Colégio Estadual Alfredo Magalhães, no Rio Vermelho, analisa que essa mudança passaria por cursos e especializações dos professores, mas a baixa remuneração da carreira prejudica. “Com os baixos salários, os professores precisam ministrar aulas de manhã, à tarde e a noite, para ter uma remuneração que possa dar conta de uma vida digna”, lamenta. “Não existe tempo para cursos de especializações e fazer um real planejamento voltado para aquela determinada comunidade”, completa.

No colégio, a professora Bárbara desenvolve o projeto de um Centro Avançado em Ciências, existente desde 2006, onde alunos do sétimo ao nono ano são selecionados para desenvolverem atividades no centro, por três dias no turno da tarde. “Cada aluno se aprofunda no tema que mais gosta e nós viajamos para vários encontros, além de participarmos do Encontro de Jovens Cientistas”, comenta o aluno Alex Cardoso, 16, que continua no Centro mesmo estando no terceiro ano do ensino médio, por causa da bolsa de Iniciação Científica oferecida pela Ufba.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s