ARTIGO: O PAPEL SOCIAL DE UM PROGRAMA NÃO FORMAL DE EDUCAÇÃO, VOCAÇÃO E EDUCAÇÃO CIENTÍFICA NA BAHIA: É NECESSÁRIO, DIFÍCIL, MAS CONSEGUIMOS!

Por Rejâne Lira*

Ilustração: Carlos Reis

Ilustração: Carlos Reis

Um dos grandes desafios que se apresenta para Cientistas e Jornalistas atualmente é comunicar a ciência para a população em geral. Museus, Centros de Ciências, Exposições, Feiras de Ciências e Olimpíadas, justamente as principais ferramentas utilizadas pelos cientistas, ocuparam os últimos lugares, com uma frequência que variou entre nunca a quase nunca, entre uma pesquisa com jovens ibero-americanos (POLINO, 2011). A Cultura Científica está imbricada em uma Educação Científica e Divulgação Científica de qualidade, e é aí que Jornalistas, Cientistas e Professores de Ciências devem trabalhar em um só lado.

 Este é um relato da experiência da pesquisa-ação sobre o papel social do Programa de Educação, Vocação e Educação Científica na Bahia, criado em 2005 na UFBA, uma discussão sobre a sua necessidade, diante do fraco desempenho dos estudantes brasileiros no Programa Internacional de Avaliação de Jovens Escolares (PISA, 2006), as dificuldades de sua implantação e a sua efetiva realização. Na escala de Competência em Ciências no PISA de 2006, 61,8% dos alunos brasileiros ficaram no Nível 1 (até 409,5 pontos), que evidencia um padrão de conhecimento científico tão limitado que só conseguem aplicá-lo a uma poucas situações familiares ou apresentar explicações científicas óbvias.

 Nenhum estudante brasileiro avaliado atingiu o Nível máximo (6) – acima de 707,9 pontos – onde conseguem identificar, explicar e aplicar conhecimentos da ciência e conhecimentos sobre ciências em um leque variado de situações complexas do dia-a-dia. A despeito dos péssimos índices, os estudantes brasileiros apresentaram grande adesão às Ciências, uma vez que 85,7% deles responderam positivamente ao quesito tenho interesse em aprender sobre ciências e 82,5% ao item gosto de saber coisas novas sobre ciências. Na avaliação das competências os alunos brasileiros apresentaram os melhores índices em identificar questões científicas (398,2 pontos) e os piores em usar as evidências científicas (378,1 pontos) e isto inclui refletir sobre as implicações sociais da ciência e do desenvolvimento tecnológico.

 Na dimensão dos conhecimentos de ciências, os estudantes apresentaram a melhor pontuação (403) no conhecimento sobre os Sistemas Vivos (células, seres humanos, populações, ecossistema, biosfera) e a pior no conhecimento sobre Terra e Universo – 375 pontos (estruturas da Terra e seus sistemas, energia, mudanças nos sistemas da Terra, história da Terra, a Terra no espaço). Não por acaso, as áreas específicas que os estudantes manifestaram maior interesse foram Biologia (81,2%) e os dados do Censo Escolar do Ensino Médio de 2007, do Ministério da Educação, mostraram que Biologia é a disciplina com maior adequação, o que significa, que o Professor ensina na sua área de Graduação e com formação em Licenciatura, o que nem sempre acontece com Química e Física (WAISELFISZ, 2009).

 Um aspecto revelador do PISA (2006) mostrou que sob o ponto de vista instrumental, ou seja, das vantagens profissionais e laborais derivadas de um melhor domínio das ciências, os estudantes brasileiros também responderam positivamente a itens como estudo ciências porque sei que é útil para mim (76,6%), vale a pena esforçar-me em ciências, pois isso vai ajudar-me na profissão que quero vir a ter (75%), vale a pena estudar ciências, pois o que aprendo pode aumentar as minhas hipóteses de trabalho futuras (71,2%), provavelmente por estarem na última etapa da educação básica e prestes ou já inseridos no mercado de trabalho. Para Waiselfisz (2009) os fatores que explicam o baixo desempenho dos jovens estudantes brasileiros no PISA e o abismo que nos separa dos resultados dos países cuja educação é de qualidade, é o significativo atraso escolar dos estudantes do Brasil, sobretudo no meio rural, quando comparados com o de outros países do mundo (média de 8,74 anos), que tem sido combatido com a recente regulamentação baixando de 7 para 6 anos, a idade de ingresso na escola; o descumprimento das leis relativas à educação de crianças e jovens; a formação e aproveitamento inadequado dos professores do Ensino Fundamental, a alta rotatividade destes docentes nas escolas públicas e o equívoco histórico de relegar ao ensino de Ciências um segundo plano na formação dos estudantes.

O impacto disso é mostrado por Molina (2011), onde apenas 2,7% dos estudantes do ensino médio (de 15 a 19 anos) da América Latina e Espanha querem ser cientistas e seguir uma carreira nas áreas de ciências exatas ou naturais (Biologia, Química, Física e Matemática), 56% dos entrevistados se disseram interessados em se profissionalizar em ciências sociais.

O ensino de ciências no Brasil vai mal e certamente esta não é uma responsabilidade dos estudantes, nem tão pouco falta de interesse por parte deles. O problema é complexo e a principal causa, sem dúvida é a histórica corrupção que leva boa parte dos nossos recursos que poderiam ser utilizados para a educação. Ainda assim, o Brasil tem levado a cabo programas com estudantes da Educação Básica, entre eles, destaco a linha de ação no âmbito do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), denominada “Ciência, Tecnologia e Inovação para o Desenvolvimento Social”, Olimpíadas de Ciência, o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica Júnior – uma parceria entre o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e o MCTI e as Fundações de Amparo à Pesquisa estaduais –, o Prêmio Ciências no Ensino Médio (apoiado pelo MEC), o Programa de Popularização da Ciência e Melhoria da Qualidade do Ensino nas Escolas Públicas do País, denominado “A Ciência é de Todos” (apoiado pelo MEC e pela UNESCO). Foi neste âmbito que foi implantado, em 2005, o Ciência, Arte & Magia, hoje Programa Social de Educação, Vocação e Educação Científica na Bahia, na Universidade Federal da Bahia.

Nosso Programa foi destacado por Roitman (2007, 2009) como uma das quatro recentes, entre várias experiências conduzidas com o objetivo de consolidar a educação científica na Educação Básica no País, ao lado do Projeto ABC na Educação Científica – Mão na Massa (Academia Brasileira de Ciências), Sangari do Brasil e Centro de Educação Científica de Natal e Macaíba – RN (Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra).

Foi observando e experimentando, através da oferta da Disciplina “Ensino de Ciências: Criatividade e Experimentação”, oferecida no Programa de Pós-graduação em Ensino, Filosofia e História das Ciências (UFBA/UEFS), ao qual estou vinculada, e também por meio da coordenação da área de Licenciatura em Biologia do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID, apoiado pela CAPES), que mergulhei nas dificuldades dos professores de ciências. A partir da escuta em relação a essas dificuldades, principalmente no que diz respeito à sua prática docente, e ao seu discurso de que “os alunos não querem nada”, é que me debrucei em implantar um Projeto que auxiliasse Professores e Estudantes da Educação Básica no ensino de ciências.

Este Programa relaciona Extensão, Ensino e Pesquisa-ação, através da Educação e da Divulgação Científica. Tem como objetivo principal despertar vocações científicas, com a expansão da cultura científica entre os jovens, através da criação de Centros Avançados de Ciências (CAC), coordenados por professores das escolas, com forte papel social, educativo e político de produção de conhecimento. Temos cumprido com o propósito do Programa “A Ciência é para Todos”, uma vez que em 8 anos de atividade desenvolvemos uma Educação Científica Criativa, com base na Criatividade, tanto dos discentes, quanto dos docentes, no desenvolvimento das atividades. Na sua didática o professor deve buscar desenvolver situações diversas, através de técnicas de ensino, que sejam, ao mesmo tempo, inteligentes, interessantes e instigantes. A primeira tem a ver com a razão, a segunda com admiração e a última com indagação, favorecendo ao aluno vivenciar experiências com esses elementos, de forma concomitante, trazendo, assim, uma revitalização ao processo de ensino-aprendizagem, de forma dinâmica, interativa e lúdica. A nossa questão metodológica fundamentou-se na interação educador/educando, mediada pelo conhecimento científico e pela realidade histórico-social do aluno. Esta postura implicou em duas funções básicas: a função incentivadora e a função orientadora. Incentivadora, garantindo situações que estimularam a participação ativa do aluno no desenvolvimento de seus projetos, e orientadora em relação ao seu objeto de pesquisa, orientando-o para que pudesse criar e desenvolver seu próprio conhecimento.

São resultados do Programa Social de Educação, Vocação e Educação Científica na Bahia, a participação de cerca de 600 estudantes do Ensino Fundamental e Médio, a mobilização da população escolar em torno dos temas sobre a importância da Ciência & Tecnologia, contribuindo para a popularização desses saberes de forma mais integrada; a divulgação das produções feitas pelos estudantes, utilizando-se de procedimentos científicos teórico-práticos pertinentes aos seus objetos de estudo, levando-se em conta a articulação interdisciplinar desses conhecimentos; facilitação do acesso ao conhecimento científico a uma população escolar mais desfavorecida e do entendimento, por parte dos adolescentes, da ciência dinâmica como algo presente no dia-a-dia e a ampliação da compreensão científica de fenômenos físicos, químicos, ambientais e sociais da região onde os alunos residem, adotando a criatividade como prática corrente do trabalho coletivo. Levando-se em consideração esses pressupostos, trabalhamos com cinco eixos: a Escola, o Educador, o Educando, a Educação e o Conhecimento.

Toda a produção do Programa foi publicada em 5 livros e 5 livros de resumos, 42 artigos científicos, mais de 200 trabalhos apresentados em Eventos científicos. Destacam-se a produção de cerca de 40 vídeos, de 2006 a 2011, na Série “Jovens Repórteres Científicos”; 5 jogos do  “Zooteca: Brincando e Aprendendo com Jogos sobre Zoologia”  e 7 jogos  eletrônicos, concebidos e produzidos por jovens da Educação Básica das escolas parceiras do Programa.

Acreditamos que este Programa cumpriu com o propósito do Programa “A Ciência é para Todos”, uma vez que criou novas metodologias de ensino das ciências, a partir das realidades locais. É assim, que juntos, estamos vencendo o desafio da Educação Científica!

 

* Coordenadora do Programa Social de Educação, Vocação e Divulgação Científica na Bahia, Instituto de Biologia, Universidade Federal da Bahia, Campus Universitário de Ondina, Salvador, BA, 40.170-210, rejane@ufba.br

 

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